Eu não sou um vegetaL

demim_pramim mim_pramim_de pramim_demim mim_depra_mim

sexta-feira, 16 de junho de 2006

e eis que volto a escrever...
e eis que voltam a me responder...
esquisito?


Lembram de Ricardo Reis? Heterônimo de Pessoa?
O pagão, o dionísico, o desprendido Ricardo Reis?
Gosto dele. Tenho lido suas poesias (correção: seu odes) e tenho achado muito justo.
Muito coerente, muito... assim, simples.
Pra que a complexidade? Por que o estresse? Vivamos somente.


Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranqüilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira do rio,
Pagã triste e com flores no regaço.


Este fim tem um "quê" de Pequeno Príncipe, não tem? Quando "ao olhar os campos de trigo lembrarei de teus cabelos"...

Enfim, esta é a idéia: desencana e viva!

2 Comments:

At 16/6/06 13:52, Blogger  said...

pensando bem, relendo o poema... ele é meio covarde, não é?

...

 
At 16/6/06 18:35, Anonymous Anônimo said...

jubs...
saudades!!!
bjinhus
Yuka

 

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