Um ensaio sobre o escrever.
Muitas pessoas já me disseram que eu as ensinei a escrever. Apesar de admitir ser vaidosa em relação à minha escrita e consentir elogios, estes relatos realmente me causaram surpresa. Uma porque eu nunca me propus a sentar e derramar modos e técnicas de como se escrever um bom texto (até porque acho que isso é subjetivo) e outra porque eu creio que escrevo bem, mas não me acho tanto a assim a ponto de me colocar em postura de professora.
Uma vez que nunca fiz isso – dei aulas ou discursei sobre como escrever – estes depoimentos me foram uma surpresa à primeira consciência, e logo mais, tardiamente pensando sobre o evento, me trouxeram uma sensação de orgulho e satisfação comigo mesma – sem nunca perder o caráter de espanto.
Voltando, uma vez que nunca dei aula de escrita, e estes amigos se disseram melhores escritores por me conhecer e ler o que escrevo, logo isso significa que o que escrevo de fato atinge alguém. Pro cara ter parado pra pensar e se inspirado a escrever diferente, é algo de grande significação!
Em outra dimensão, eu consegui me objetivar numa forma concreta; consegui transformar aquilo de mim em algo que os outros pudessem ver, sentir e se modificar. Não só me senti feliz por ter escrito algo que comovesse alguém, mas por este algo ter entrado para a essência desse alguém; se misturou com uma fórmula já preparada e em constante processo de constituição dentro de um ser, unificando-se a um todo etéreo. A um todo etéreo que, por sua vez, subiu para a cabeça e objetivou-se em pensamento mudado, transfigurado, que foi filtrado pela limitude das palavras e exposto em papel [ou digitado – adendo para os tempos modernos].
Isso tudo, essa transformação, teve um pouco de mim, que teve muito de outros, que assim vai, assim vai, assim vai. E eu sou um pouco daquilo que ele escreve. E ele é um pouco de mim e de tudo o que alguns escreveram antes. E assim a gente vai se dividindo e se propagando.
Ao mesmo tempo dividir e propagar, sem nunca se tornar menor, sem jamais se esgotar na extensão, apenas uma coisa só a qual chamamos humano. E assim, pela escrita, pela leitura, todos somos um. E eu complemento você, e ele complementa a mim, e eu nunca sou eu mesma e ninguém nunca é. Nós somos todos.
Clara Maia
