Eu não sou um vegetaL

demim_pramim mim_pramim_de pramim_demim mim_depra_mim

domingo, 30 de setembro de 2007

Por que é que a gente faz coisas que a gente não quer
e quer coisas que a gente não faz?

É por essas e outras que eu me ponho a pensar. Sobre minha vida, meu ser-no-mundo. Porquê, né? Não entendo. Ou melhor, devo entender, mas não quero me analisar.

Coisas que a gente não quer, coisas que a gente quer mas não faz... difícil, hein.

Trilhões de vezes mais um: ligeira ressaca moral - antes mesmo de dormir. Filosofia...

Outra coisa: por que a gente não quer quem quer a gente? E por que ás vezes quem a gente quer não nos está nem aí?

(Já viu como eu falo "a gente" pra falar de mim?)

Perder. É, perder sem jogar. Por que não jogo? Sei lá, meu ser-no-mundo. Maldito jeito e maldita Fenomenologia Existencial. E morte a Binswanger-nem-sei-se-é-assim-que-se-escreve!

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

CASA DE ALUGUEL

Estou em uma casa. É grande, muito grande, tudo é imenso – sem móveis.

Abrir as janelas.

Este movimento: abrir as janelas; me aproximar pouco a pouco da parede que a sustenta e: abrir as janelas, imensa janela.


Abrir a janela e de repente sentir meu rosto corar e meus pêlos e minha alma serem impulsionados para trás: instante do momento em que meus braços abrem a janela.
Vento.

Vento! Vento dentro da casa! Vento dentro dessa casa enorme que sacode toda com suas mil poeiras espalhadas pelo todo que revoam em círculos confusos para cima e para o ar procurando sombra pra se esconder do vento. E a casa vibra, a casa foge.
E logo a poeira se foi – findo o instantâneo momento em que as janelas são abertas – e tudo está como é, desvelado.
Atrás de mim – pois ainda fito a janela, com meus braços ainda grudados a ela – tudo é outra coisa. A casa vazia. A poeira já era. E de repente tudo está claro de luz e tudo diz oi à vida, assim mesmo, como se sempre tivesse existido, tranquilamente diz simplesmente um oi à vida, e fica lá como se sempre..

A casa vazia, agora viva respirando. Sem bronquites. A casa que agora me dá oi e me pede para hospedar-me, esperando o momento em que me voltarei para ela – pois ainda estou para a janela (meus pêlos e rosto ainda percebem o vento que já se cessou) – e pensarei então que tudo agora é.

Volto-me para dentro de mim. Meus dedos descolam-se da janela (sinto meus dedos desencarnarem da textura da janela e voltarem a ser só meus dedos). Braços imperceptivelmente e aos poucos, imperceptivelmente e aos poucos, voltam ao contato do meu corpo, até que os sinta colados estendidos à minha cintura. Meu rosto nada mais é do que sensação. Ainda se sente o vento – suspira seus últimos – leve, rodopiando entre meus olhos.
O vento, o vento, esse que acordou a casa e que jogou para trás minha alma dentro de meu corpo. (Jogou talvez tão forte minha alma que empurrou-a para fora – a casa. Minha alma estaria na casa agora, perambulando, a esperar por mim). Nos olhos vento. O rosto fita e sente o que admira à sua frente que a janela escondia, e à sua frente é só branco. Aquele branco branco, branco claro, branco resfriado, de onde do qual partiu o vento – estava aprisionado? Soltei o vento pra dentro da casa?
O rosto, o vento, o branco. De repente me volto à casa (minha alma precisa voltar à mim).

Sem poeira. Clara e certa e calma como uma casa. Certa e calma, como uma casa. Talvez tudo o que minha alma queira. Sinto-me ali. Agora posso ser porque tenho onde morar. Janelas abertas continuem abertas. Meu corpo sempre virado pra trás (contra as janelas). Vivo agora para a casa. Dentro dela, sou ela, sinto-me ela. Caminho ao longo do dia, tão só e tão certa de que eu sou eu.

A janela, por trás – para trás, pelos dias. Imensa janela, a imensa janela. pouco a pouco se fecha com o vento que escapa e se volta para o branco. Chegará o dia em que, absorvida nos enfeites em que adorno a casa, a última gota de ar sem dizer dá adeus – vai, foge de novo para o branco da janela. Após sua passagem, o último vão se fecha. De novo a escuridão, o pó, o frio. Ouço apenas a janela fechando. E tremo-me de novo com a certeza de que é preciso sair.