p o e v a l é t i c aLua luar
E me pego a transformar
Que há um noturno ar gelado
Que em mim foi inspirado
Seria ele a minha projeção
Ou o sopro de minha respiração?
Se no ar tem de meu um pouco
Por que não pegá-lo como todo
O que no fora expande-se universo
No meu dentro ocorre não inverso
- que universo é o que tem dentro da gente:
venta, volta, respira, solta.
Existo no instante da exalada:
Vida cria, ar que é, pertence a tudo
Forma etérea, pontilhada, é grão é nada.
....
Lua luar
Me transforma transformar
Vincent van Gogh
A 23 de julho de 1890 Vincent escreve sua última carta destinada a seu irmão Théo. Em 27 de julho sai para um passeio no parque, onde dispara um tiro contra o próprio peito. Dois dias depois, morre ao final da noite em sua casa.
Em 23 de julho de mais de dois séculos atrás o famoso van Gogh escreveu pela última vez uma carta pro seu irmão, aquele que sempre foi seu confidente e seu porto forte durante a vida; aquele no qual confiou como um pai, um irmão, um amigo, um investidor. Théo era o pontinho reluzente que piscava pra van Gogh quando tudo se tornava escuridão.
Li mesmo que van Gogh manteve-se tanto tempo vivo pela simples existência do irmão: de alguém no mundo que pudesse apoiá-lo, um alguém-referência.
Vincent descobre que vai acabar com a vida; ele tinha muitos preceitos, baseados na sua religiosidade, como: a morte não é um fim trágico, é só um outro paralelo. Via a morte como a idealização cristã da redenção. ou seja, não era o fim.
Então no dia 23, Van Gogh resolve escrever uma última carta apara aquele que sempre foi o seu peso na vida, aquele que nunca a havia deixado voar. Olha só que lindo, o van Gogh disse para o Théo sobre os seus quadros no início da carreira: " mas acredita em mim, se um dia forem suficientemente bons, terás sido tão criador quanto eu, porque nós dois fizemo-los juntos", tal a infusão de Théo em sua existência.
Como será escrever uma última carta a uma pessoa querida? À pessoa que te manteve por 37 anos em vida? Pois bem, minha teoria dos sentimentos: creio que algo tão forte assim que um dia já existiu não se esvaiu do mundo. A matéria vai, a energia fica. Toda avalanche e confusão de sentimentos que van Gogh sentiu nesse dia, neste exato dia, não sumiu com o definhar de seu corpo; se espalhou, no momento em que nascia, para o mundo e para o tempo e para todas as outras vibrações que já perderam seu corpo mas não perderam suas propriedades, e continuam vagando por aí tocando pessoas em momentos vãos.
Se um dia...Se hoje, te acometer por aí um sentimento ímpar, uma sensação nova, um gostinho estranho...
um olhar desfocado do mundo...e se perceber percebendo a imagem, sentindo o quente do sol, as rosas desfocadas, a vibração implícita do azul e do amarelo, e as coisas não parecerem de repente tão óbvias quanto antes, porém tão verdadeiras como nunca... acredite: você captou um sentimento de van Gogh.
O Vincent, acabou há dois séculos atrás. Mas sua exuberância de vida se manteve propagando aqui na terra.
Mesclo-me com van Gogh, neste dia tão especial.