Eu não sou um vegetaL

demim_pramim mim_pramim_de pramim_demim mim_depra_mim

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

CASA DE ALUGUEL

Estou em uma casa. É grande, muito grande, tudo é imenso – sem móveis.

Abrir as janelas.

Este movimento: abrir as janelas; me aproximar pouco a pouco da parede que a sustenta e: abrir as janelas, imensa janela.


Abrir a janela e de repente sentir meu rosto corar e meus pêlos e minha alma serem impulsionados para trás: instante do momento em que meus braços abrem a janela.
Vento.

Vento! Vento dentro da casa! Vento dentro dessa casa enorme que sacode toda com suas mil poeiras espalhadas pelo todo que revoam em círculos confusos para cima e para o ar procurando sombra pra se esconder do vento. E a casa vibra, a casa foge.
E logo a poeira se foi – findo o instantâneo momento em que as janelas são abertas – e tudo está como é, desvelado.
Atrás de mim – pois ainda fito a janela, com meus braços ainda grudados a ela – tudo é outra coisa. A casa vazia. A poeira já era. E de repente tudo está claro de luz e tudo diz oi à vida, assim mesmo, como se sempre tivesse existido, tranquilamente diz simplesmente um oi à vida, e fica lá como se sempre..

A casa vazia, agora viva respirando. Sem bronquites. A casa que agora me dá oi e me pede para hospedar-me, esperando o momento em que me voltarei para ela – pois ainda estou para a janela (meus pêlos e rosto ainda percebem o vento que já se cessou) – e pensarei então que tudo agora é.

Volto-me para dentro de mim. Meus dedos descolam-se da janela (sinto meus dedos desencarnarem da textura da janela e voltarem a ser só meus dedos). Braços imperceptivelmente e aos poucos, imperceptivelmente e aos poucos, voltam ao contato do meu corpo, até que os sinta colados estendidos à minha cintura. Meu rosto nada mais é do que sensação. Ainda se sente o vento – suspira seus últimos – leve, rodopiando entre meus olhos.
O vento, o vento, esse que acordou a casa e que jogou para trás minha alma dentro de meu corpo. (Jogou talvez tão forte minha alma que empurrou-a para fora – a casa. Minha alma estaria na casa agora, perambulando, a esperar por mim). Nos olhos vento. O rosto fita e sente o que admira à sua frente que a janela escondia, e à sua frente é só branco. Aquele branco branco, branco claro, branco resfriado, de onde do qual partiu o vento – estava aprisionado? Soltei o vento pra dentro da casa?
O rosto, o vento, o branco. De repente me volto à casa (minha alma precisa voltar à mim).

Sem poeira. Clara e certa e calma como uma casa. Certa e calma, como uma casa. Talvez tudo o que minha alma queira. Sinto-me ali. Agora posso ser porque tenho onde morar. Janelas abertas continuem abertas. Meu corpo sempre virado pra trás (contra as janelas). Vivo agora para a casa. Dentro dela, sou ela, sinto-me ela. Caminho ao longo do dia, tão só e tão certa de que eu sou eu.

A janela, por trás – para trás, pelos dias. Imensa janela, a imensa janela. pouco a pouco se fecha com o vento que escapa e se volta para o branco. Chegará o dia em que, absorvida nos enfeites em que adorno a casa, a última gota de ar sem dizer dá adeus – vai, foge de novo para o branco da janela. Após sua passagem, o último vão se fecha. De novo a escuridão, o pó, o frio. Ouço apenas a janela fechando. E tremo-me de novo com a certeza de que é preciso sair.